Diga Aos Lobos que Estou em Casa (Carol Rifka Brunt)

Eu nasci em 1987. Dessa forma, minha infância e início da adolescência ocorreram durante a década de 90. Há muito dessa coisa do “orgulho de ter crescido nos anos 90”, mas ainda sim eu só consigo me lembrar de 1995/1996 para frente. Perdi diversos acontecimentos anteriores a esses anos justamente porque era jovem demais para entender ou para me lembrar (minha memória é muito ruim, tem esse porém também).

Porém, existem situações que mesmo que a gente não consiga se lembrar, acabam fazendo parte, de certa forma, de como vivemos. A década de 80 foi marcada pelo “surgimento” da AIDS, e até grande parte dos anos 90 muito ainda era desconhecido pela população e o preconceito deslanchava cada vez mais.

Voltamos para 1987. E é nesse ano que a história de Diga Aos Lobos que Estou em Casa (Tell the Wolves I’m Home, no título original em inglês) acontece. Carol Rifka Brunt escreveu uma história bem inspirada sobre uma adolescente que precisa lidar com a perda de sua pessoa mais querida – e que acaba descobrindo que perdeu muito mais do que imaginava.

digaaoslobosqueestouemcasa

Estamos nos anos 80, mais precisamente em 1987 e June Elbus é uma adolescente estadunidense de 14 anos. Ela vive com os pais e com Greta, a sua irmã mais velha, e também é muito apegada ao tio e padrinho, Toby. A vida da garota não é a mais distinta, e não há nada de extraordinário em sua rotina e em seu jeito de ser: June é uma boa filha, uma garota um pouco tímida e sonhadora demais e se dá bem melhor com o tio do que com a irmã ou crianças da sua idade. Ela gosta de brincar/acreditar que vive na Idade Média e Toby sempre foi um grande incentivador de suas atitudes e modo de pensar.

Eu não estava interessada em beber cerveja e vodca ou fumar cigarro ou fazer todas as outras coisas que Greta acha que nem posso imaginar. Não quero fazer essas coisas. Qualquer um pode imaginar coisas assim. Eu quero imaginar o tempo com fendas, bosques cheios de lobos e pântanos frios à meia-noite. Sonho com pessoas que não precisam fazer sexo para saber que se amam. Sonho com pessoas que só se beijariam no rosto. (página 81)

No entanto, Toby tem AIDS e acaba falecendo precocemente. June fica devastada, especialmente quando é informada de que um “amigo” do tio foi a pessoa que passou a doença para ele. Ao vê-lo no funeral, a garota fica confusa, sem saber exatamente o que pensar dele, mas decide seguir em frente. O que ela não sabe é que logo seria procurada por Finn (o “amigo”) para que pudessem conversar em segredo, e que logo aceitaria as investidas dele e passariam a conversar regularmente – e que isso mudaria a sua vida naquele momento de tanta dor.

O amadurecimento e também a percepção de mundo de June mudam por causa de Finn. E não porque ele tenha começado a demonstrar tudo isso e jogado as cartas com valores reais na frente da menina, mas porque aos poucos as peças começaram a se encaixar em sua vida e isso também envolveu pessoas fora do quadradinho que continha apenas June-Finn. E são esses descobrimentos que tornam a história muito bonita, mas que também mostram algumas partes bastante incômodas.

Greta e June são irmãs bastante distintas e a relação entre elas, que antes era bastante amistosa apesar das diferenças, tornou-se muito difícil especialmente após a morte de Toby. June não consegue compreender como as coisas mudaram entre elas e por qual motivo a irmã mais velha a trata com tanta hostilidade, apesar disso ser algo bastante óbvio para o leitor desde o começo: Greta foi escrita propositalmente para ser “odiada” e como um “mistério”, mas não colou. A clássica irmã prodígio mais velha e mais madura que na realidade está mais desesperada e é mais inocente do que a irmã mais nova. Sinto que Carol quis que ficássemos intrigados sobre as verdadeiras motivações de alfinetadas e maldades de Greta, mas fica bem óbvio que ela é tão infantil quanto June, e isso me irritou profundamente. A relação entre as duas tem os seus momentos bons,até, mas no geral Greta foi o pior ponto do livro todo, e muitas vezes quando ela apareceria eu sentia vontade de pular os parágrafos e chegar em algum lugar em que ela não estivesse presente.

Talvez devesse ser crime tentar ver nas pessoas coisas que elas não querem que você veja. (página 8)

Nesse meio tempo June começa a se encontrar escondida com Finn, e na verdade o fato de ela ter confiado em um homem adulto e desconhecido que a sua própria família odeia e sempre diz para se manter distante não deixa de ser um problema, para mim. Entendo que crianças são rebeldes às vezes e que não enxergam maldade em tudo, e de fato a autora quis mostrar que Finn era mesmo uma boa pessoa e que só tinha excelentes intenções com a menina, mas achei problemático da mesma forma, já que June esconde dos pais os encontros mesmo sentindo medo inicialmente. Essa aproximação dos dois me deixava muito tensa durante a leitura, e acredito que ela poderia ter ocorrido de outra forma.

Como basicamente tudo resolve acontecer ao mesmo tempo na vida de June, ela começa a construir e desconstruir o relacionamento com os seus pais, mais especificamente com a sua mãe. Sigam o meu raciocínio: ela é uma menina solitária (não tem amigos, literalmente), não se relaciona bem com a irmã, nem com os pais, só fica feliz quando finge que vive em outra época, o tio morre e ela tem apenas um amigo adulto e com hábitos de adulto (como beber e fumar) em quem confiar. Logo, não é muito difícil que ela passe a avaliar os motivos dessa solidão e de fato o que há de errado na relação que ela tem com as pessoas. Nesse sentido Carol foi bastante feliz, pois June é bem madura para a sua idade, mas ainda tem reflexões adequadas para uma menina de 14 anos que vive nos anos 80.

Eu gosto da palavra clandestina. Parece medieval. Às vezes, penso nas palavras ganhando vida. Se clandestina estivesse viva, seria uma garota pequena e pálida com o cabelo da cor das folhas no outono e um vestido branco como a lua. Clandestina era o tipo de relação que Toby e eu tínhamos. (página 297)

A história vai seguindo essa fórmula: Toby morre e June, de luto, começa a aprender mais sobre o tio com Finn e também mais sobre a sua família e sobre ela mesma. No entanto, conforme as coisas acontecem, o que se nota é que a autora criou um único padrão e inseriu todas as personagens nele: o padrão da vida dupla. É óbvio que ninguém pode ser uma única pessoa o tempo todo, temos diversas facetas, nuances e comportamentos diferentes dependendo da situação. Mas Carol dividiu todo mundo em dois literalmente e nos deixou na dúvida sobre quando (e se) as personagens iriam se tornar uma só eventualmente. June tem a vida em casa e na escola e a vida clandestina com Finn; Greta tem a vida na frente dos pais e a vida nas festas no bosque; Finn tem a vida que ele vivia com Toby e a que tinha que esconder para viver com ele, e por fim, a mãe de June tem a vida que ela gostaria de ter vivido e a vida que escolheu viver. É bastante triste notar como muitas vezes precisamos nos esconder sobre fachadas que não gostamos para sobrevivermos ou escondermos os nossos medos, e este é provavelmente o aspecto mais triste do livro (talvez mais triste do que a morte de Toby, que foi a única personagem que viveu exatamente como quis).

Se você sempre garantir que é exatamente a pessoa que esperava ser, se sempre garantir que conhece apenas as melhores pessoas, então não vai se importar de morrer amanhã. (página 265)

A AIDS no Estados Unidos dos anos 80 também teve uma participação bem importante na história. As pessoas ainda estavam confusas sobre como a doença era transmitida e June passa por algumas situações e tem que lidar com o preconceito alheio, seja ele velado ou escancarado. Mas o mais legal nisso tudo é o fato de que a garota em momento algum reproduz esse preconceito. Ficou bastante natural o modo como June lidou com isso, e em plena década de oitenta.

Por fim, Diga aos Lobos é basicamente uma história de superação, mas também de muito esclarecimento e reflexão. Os pontos negativos não chegam a ofuscar os positivos, mas diminuíram bastante a minha nota final para a obra. Talvez se June fosse mais velha, alguns aspectos do livro ficassem mais interessantes, apesar de Carol ter feito um bom trabalho do ponto de vista de um pensamento de uma jovem, acredito que certas coisas, como June achar que ama literalmente o tio (totalmente desnecessário) poderiam ter sido suprimidas ou modificadas. Esta é uma obra para quem não se importa de ficar muito triste e também para quem gosta de um pouco de melancolia – pelo menos a dose entre esses dois elementos foi certeira.

Realmente me perguntava por que as pessoas sempre estavam fazendo alguma coisa de que não gostavam. Parecia que a vida era um tipo de túnel cada vez mais estreito. Logo que você nascia, o túnel era enorme. Você poderia ser qualquer coisa. Depois, mais ou menos no exato segundo depois de você nascer, o túnel reduzia para cerca da metade daquele tamanho. Você era menino e já estava certo que você não seria mãe e provavelmente não se tornaria manicure e nem professora do jardim de infância. Depois, você começava a crescer e tudo o que fazia fechava o túnel mais um pouco. Você quebrava o braço subindo em uma árvore e descartava ser arremessador de beisebol. Era reprovado em todas as provas de matemática que fazia e cancelava qualquer esperança de ser cientista. Assim. De novo e de novo, ao longo dos anos, até você ficar preso. (…) Eu pensava que, no dia da sua morte, o túnel estaria tão estreito, você teria se apertado com tantas escolhas, que simplesmente seria esmagado. (página 330)

 

  • Carol Rifka Brunt é uma escritora estadunidense. Diga aos Lobos foi o seu livro de estreia, publicado em 2012.
  • No Brasil o livro foi publicado pela editora Novo Conceito em 2014 e a tradução foi feita pela Bárbara Menezes.
  • A revisão do livro deixou muito a desejar. Erros que saltam aos olhos e teve um até um que foi um pouco absurdo.

 

 

 

Toda Luz que Não Podemos Ver (Anthony Doerr)

“Menos é mais”.

Ouço muito (e confesso que também falo muito isso): “histórias muito complexas e longe da realidade não atraem tanto quanto as mais simples e mais próximas de nós”. Em partes, não há como negar que esta é uma verdade. Muitas vezes eu me identifico muito com uma história do cotidiano que não é necessariamente inovadora ou que me deixa boquiaberta. Por outro lado, há muitos livros que leio e fico “uau!” devido a fatores como criatividade e uma escrita diferente, mesmo que o contexto seja muito distinto do meu. Toda Luz que Não Podemos Ver (All the Light We Cannot See, no original em inglês), de Anthony Doerr, chama mais a atenção pelo modo como os acontecimentos são escritos do que apenas pela história em si (que também é muito bonita, digassedepassagi).

todaluzblog

Marie-Laure LeBlanc é uma garotinha francesa que perdeu a visão muito cedo devido à catarata. Seu pai é viúvo e cuida das chaves do Museu de História Natural, em Paris. Daniel LeBlanc utiliza suas habilidades manuais e tem uma ideia genial: construir uma maquete dos arredores da cidade mais visitados pela filha para que ela, com os dedos, consiga identificar as ruas em tamanho real e possa ter mais liberdade de ir e vir, apesar de não conseguir enxergar mais nada.

Os dois levam uma vida comum, até que a Segunda Guerra Mundial torna-se iminente e o pai de Marie é encarregado de uma grande missão: há uma pedra extremamente valiosa no Museu (chamada Mar de Chamas), e para protegê-la dos nazistas (vamos nos lembrar de que Hitler mandou saquear milhares de obras de arte por toda a Europa), três réplicas são criadas e quatro funcionários do lugar são escolhidos para fugir tanto com as réplicas quanto com a original. A sacada aqui é o fato de que nenhum deles sabe se está carregando a original ou as cópias, mas todos devem se dedicar integralmente a proteger o artefato designado. Dessa forma, Daniel e Marie-Laure fogem de Paris para ficar com o tio avô da menina em Saint-Malo, onde supostamente estariam seguros.

Quantos labirintos existem neste mundo. Os galhos das árvores, as filigranas das raízes, a matriz dos cristais, as ruas que o pai dela tinha recriado nas maquetes. Labirintos nas saliências de conchas de múrex, nas texturas da casca de plátanos e dentro dos ossos ocos das águias. Nada mais complicado do que o cérebro humano, diria Etienne, a coisa mais complexa que existe; um órgão, dentro do qual giram universos.

Já Werner Pfennig, um alemão órfão que só possui a irmã e mora em uma espécie de orfanato, também vive a sua vida: bastante inteligente e com grande imaginação, ele logo aprende a mexer em circuitos elétricos de rádios e começa a fazer pequenos consertos pela região. Sua habilidade chama a atenção de um homem com alta patente nazista, que logo o envia para uma escola militar, onde ele novamente se destaca devido à sua inteligência. Mas sozinho no mundo e sem ter uma referência além de sua irmã, que ainda vive no orfanato e está longe dele, o jovem acaba com muitas dúvidas sobre a sua posição como soldado e não tem muito para onde olhar para encontrar respostas – pelo menos é nisso que ele acredita.

Inicialmente as duas histórias ocorrem de forma simultânea e independente, mas aos poucos alguns elementos vão se conectando. No entanto, engana-se quem acha que a união de ambas é o que irá compor o enredo. A história deve ser saboreada e aproveitada de forma individual, sem necessariamente esperar o momento no qual as duas vidas irão se unir (se é que esse momento chegará). Confesso que a expectativa é boa (apesar de às vezes cansar), mas depois de um tempo você sequer se incomoda e acaba querendo saber mais como as vidas de Werner e Marie-Laure irão se desenrolar individualmente do que pensar em como tudo isso pode ser entrelaçado.

‘Como chamamos a luz visível? Chamamos de cor. Mas o espectro eletromagnético corre ao zero em uma direção e ao infinito na outra, então, na verdade, crianças, matematicamente, toda luz é invisível.

Em termos de Segunda Guerra Mundial, Toda Luz não possui uma abordagem unilateral: a vida do lado alemão e do lado francês pode ter suas inocências e culpas, mas Doerr não se esquece em momento algum de apontar “os vilões”. Ao mesmo tempo em que há uma sensibilidade em relação aos jovens alemães com uma vida dura e que acabaram sendo levados por toda essa ideia radical, ninguém passa a mão na cabeça de ninguém: em algum momento, com boas ou más intenções, a conta chega e é necessário pagá-la.

Há também a parte fantasiosa da história, já que a Mar de Chamas possui uma lenda bem interessante por trás dela: aquele que possuir esta pedra terá vida eterna, mas todos ao seu redor morrerão. Essa lenda passa suavemente por todas as personagens, e de uma forma ou de outra é entrelaçada na história de forma contínua. Isso aumenta ainda mais a aura especial já intrínseca à obra: será que a pedra é mais do que uma lenda? Como descobrir isso? O mistério está sempre ali e por vezes conseguimos até acreditar nos poderes mágicos dela.

Voltando para Marie-Laure, devo arriscar que ela é a melhor personagem do livro. O autor não explora a cegueira dela para nos fazer sentir pena: não mostra os receios, dificuldades, entre outros, ele simplesmente descreve como ela faz as coisas e conforme o tempo passa até é possível se esquecer de que Marie não enxerga. Essa é a sacada mais genial de todo o livro, pois Doerr nos mostra o quanto é possível ver de outras formas que não através apenas dos olhos. Um tipo de inclusão que é feita na prática para quem não consegue deixar de limitar-se às sensações visuais – sem considerar todo outro tipo de sensação e forma de visualização e também a forma de sentir.

‘O cérebro obviamente está fechado em escuridão total, crianças’, diz a voz. ‘Ele flutua em um líquido claro dentro do crânio, nunca na luz. No entanto, o mundo que constrói na mente é repleto de luz. Ele transborda cores e movimento. Então, crianças, como o cérebro, que vive sem uma centelha de luz, constrói para nós um mundo tão iluminado?’

Sabemos que, de certa forma, o leitor não consegue enxergar o que acontece nas páginas de um livro. E é por isso que a missão do autor é a de descrever a história da melhor forma possível, para que possamos enxergá-la em nossa cabeça. Doerr faz esse trabalho com maestria, e na verdade não força nada nas descrições para que possamos compreender como Marie-Laure enxerga: a forma como ele escreve o mundo da menina, cheio de cores e sensações, ultrapassa um relato de livro qualquer. Toda Luz é uma obra extremamente bonita exatamente por esse aspecto – ele ultrapassa a quantidade de cores e sensações que já tive com qualquer outro, e é visivelmente mais colorido e belo mesmo sendo apenas um amontoado de palavras.

O pai e o tio-avô de Marie-Laure também são personagens incríveis. Enquanto o pai a ensina sobre perseverança e sobre como ter os pés no chão e ao mesmo tempo não perder aquele fiozinho que nos faz acreditar, o tio-avô, Etienne LeBlanc, veterano da Primeira Guerra e traumatizado desde o fim dela, aprende parte do que o sobrinho ensinou à Marie de forma indireta, portanto, enquanto lemos as palavras e vemos as atitudes da menina, vemos uma parte de Daniel LeBlanc que não a abandona (como ele mesmo prometeu à menina quando eventualmente se separaram). A convivência entre tio-avô e sobrinha-neta é o que faz com que ambos sobrevivam: traz segurança à menina e inspira coragem a Etienne, que precisa superar seus medos para cuidar da menina.

A brutalidade neste livro se divide em duas partes: a francesa, mais suave, e a alemã, mais descarada. Marie-Laure e seu tio sofrem com a Guerra de uma forma mais amena, pois ele tem posses e consegue estocar uma grande quantidade de comida, tornando os dias de privação da sobrinha-neta mais curtos do que muitas pessoas na mesma situação (mais curtos não significa que fossem fáceis, mas quando se compara cruamente não há como pensar diferente). Werner, assim com Marie-Laure, pode se considerar privilegiado na Guerra: não precisou ir a fronts de batalha, mas o seu trabalho era determinante para matar diversos soldados inimigos. E ele tinha consciência disso. Uma consciência longe de ser adulta e também longe de ter sido formada de uma maneira má, mas era algo ali que, como Werner não fazia com as próprias mãos (ele encontrava os sinais de rádio clandestinos e outro companheiro é que fazia o trabalho sujo de eliminar os inimigos), tornou-se um incômodo ao longo do tempo, e não repentinamente e logo após a primeira vítima.

Para Werner, as dúvidas surgem regularmente. Pureza racial, pureza política – Bastian fala com horror de qualquer tipo de corrupção. No entanto, medita Werner na calada da noite, a vida não é uma espécie de corrupção? Uma criança nasce, e o mundo se apossa dela. Arrancando coisas dela, alojando coisas nela. Cada porção de comida, cada partícula de luz entrando no olho – o corpo nunca pode ser puro. Mas é nisso que o comandante insiste, o motivo pelo qual o Reich mede o nariz de cada um deles, avalia a cor dos seus cabelos.

Os questionamentos que surgem com Werner são o que o tornam a personagem mais complexa do livro: no lugar dele, o que faríamos? Como agiríamos no lugar dele? Como julgar uma criança com uma vida cheia de privações e que repentinamente pode fazer todas as refeições sem se preocupar com mais nada? Até onde podemos viver uma vida plena e ao mesmo tempo dupla? Mas quem de nós consegue viver apenas de acordo com o que acredita, quando há tantas necessidades reais acima de muita coisa? Doerr utilizou uma personagem criança/adolescente para transportar questões tão fortes para a nossa realidade como adultos – e é impossível não parar para pensar.

Por fim, Toda Luz poderia ter sido um livro 5 estrelas caso algo no final não tivesse me incomodado tanto (eu tenho problemas com finais). Mas recomendo muito a obra, que vai muito além de mostrar vilões e mocinhos e coragem gratuita em uma situação de Guerra. Doerr narra momentos do conflito com bastante verossimilhança, mas o foco não é apenas esse: ele quer nos mostrar que todas as coisas que somos e fazemos estão e são muito além do que achamos que somos capazes – seja bem para o bem ou para o mal. Werner e Marie-Laure, apesar de muito jovens, aprenderam isso muito cedo, e cada um em seu lugar do mundo, separados ou juntos, conseguiu ou pelo menos tentou enxergar o mundo de outra maneira. E o enxergar, aqui, vai muito além do simples ver: é o sentir, o amar, o querer, o repensar, o se arrepender, e principalmente, o fazer o bem.

E será tão difícil acreditar que as almas possam viajar também por esses caminhos? (…) arremeter ao céu em bandos, como garças, como andorinhas-do-mar, como estorninhos? Que almas voem por aí, transparentes mas audíveis se você escutar com cuidado? Elas flutuam acima das chaminés, passam pelas calçadas, deslizam para dentro do seu casaco, da sua camisa, dos ossos do seu tórax e dos seus pulmões, atravessam para o outro lado, o ar como uma verdadeira biblioteca e o registro de todas as vidas já vividas e cada sentença proferida, cada palavra transmitida ainda reverberando.

  • Anthony Doerr é um escritor estadunidense. Não possui uma obra muito extensa, mas Toda Luz que Não Podemos Ver foi o seu livro de maior destaque, chegando inclusive a ganhar o Prêmio Pulitzer de 2015.
  • A minha edição é da Intrínseca, em português, com tradução de Maria Carmelita Dias.

Troféu Literário 2015

*tirando a poeira*

Olá, pessoal!

Sei que faz muito tempo que não atualizo meu bloguinho querido (sim, ele é querido apesar de estar largado às traças, haha!) e confesso que estava apenas criando coragem de retomar as postagens (ou pelo menos tentar), mas não conseguia nunca :p No entanto, quando a  e a  fizeram o Troféu Literário 2015 eu fiquei animada e resolvi que esta retrospectiva literária do ano deveria ser uma tentativa de retorno. Portanto…acompanhem-me!

Os melhores e piores
O melhor livro

  • Não queria ser tão óbvia, mas tem que ser Les Misérables. A obra é muito extensa (dois volumes com mais de 800 páginas cada) mas não é cansativa e engloba tantos pontos importantes da vida em sociedade que às vezes me pergunto como Victor Hugo conseguiu tamanha proeza.

O pior livro

  • Um Mais Um, da Jojo Moyes. Inacreditável como ela desaprendeu a escrever. Terrível, cheio de clichês, nenhum personagem é interessante (talvez o cachorro, apenas)…enfim, não me agradou em nada e nem se compara aos outros livros que li dela.

O livro com a melhor capa

  • Por Favor, Cuide da Mamãe (Intrínseca). Confesso, inclusive, que só comprei pela capa hahaha!

29210883

O livro com a pior capa

  • Não li nenhum livro com a capa feia (UAU!).

O livro que rendeu a melhor adaptação cinematográfica

  • Revolutionary Road (sim, aquele filme com o revival do Leo DiCaprio e a Kate Winslet). Vi primeiro o filme e depois o livro, e devo dizer que a adaptação é muito fiel.

O livro que rendeu a pior adaptação cinematográfica

  • Os outros que tem adaptações para o cinema eu não cheguei a ver os filmes hahaha (minto, vi A Sociedade do Anel, mas gostei hihi).

O título mais genial

  • Uma Constelação de Fenômenos Vitais (A Constellation of Vital Phenomena) ❤

O título mais nada a ver

  • Gostei de todos os títulos D:

O melhor enredo

  • Os Luminares! A confusão que a Eleanor Catton criou chega a ser super organizada, de tão bem feita.

O pior enredo

  • Um Mais Um. Entendam que tudo nesse livro é errado hahaha.

 

ROUND TWO, FIGHT!

Os queridinhos
O meu personagem queridinho

  • A Ifemelu, de Americanah. Uma mulher mais do que maravilhosa 🙂

O personagem que me deu nos nervos

  • Aqui teriam que ser dois…os dois “homens” de O Mundo Pós-Aniversário, da Lionel Shriver. Eles são totalmente diferentes mas conseguem ser iguais no nível de babaquice.

O meu casal queridinho

  • Ifemelu e Obinze, de Americanah ❤

O casal que me fez querer vomitar

  • Jess e Ed, de Um Mais Um.

O personagem coadjuvante que eu mataria

  • O marido da Alice Howland, de Still Alice. É claro que é difícil lidar com pessoas com demência (pessoalmente eu sei mesmo), porém um cara cretino nesse nível é difícil de se encontrar.

 

TERCEIRA RODADAAAAM, SILVIO

As surpresas e decepções
O autor que mais me surpreendeu

  • Não tem como dizer qualquer outra sem ser Eleanor Catton. Imaginava que Os Luminares seria uma boa leitura, mas não que ia ser tão bem escrita e arquitetada.

O autor que mais me decepcionou

  • Jojo Moyes, claro. Não sei dizer se o sucesso está fazendo mal a ela, porque eu diria que ela escreveu Um Mais Um nas coxas. Total.

O livro que mais me surpreendeu

  • O Fantasma da Ópera. Esperava uma coisa antes de lê-lo, mas me surpreendi de forma muuuito positiva após a leitura. Mistura de terror e suspense muitíssimo interessante – e olha que eu morro de medo dessas coisas hahaha

O livro que mais me decepcionou

  • Um Mais Um. hahahah. Coloco Lolita junto porque também foi uma grande decepção. Livro muito nojento.

 

Guenta que tem mais!

As sensações
O beijo que me fez suspirar

  • O primeiro entre o Tengo e a Aomame, de 1Q84 :3

O trecho que mais me marcou

  • São TANTOS! Ai, ai, ai. Vamos de Uma Constelação de Fenômenos Vitais, do Anthony Marra:

Na mesa da cozinha, examinou o copo de gelo. Os cubos estavam arredondados dissolvendo-se em seus próprios restos, e entendeu, tardiamente, que era assim que um ente querido desaparecia. Apesar do choque de entrar em um apartamento vazio, a ausência não é imediata, é mais um desbotamento do tempo presente que você compartilhou, um derretimento em direção ao passado, não um apagamento, mas uma conversão na forma, da presença à memória, de sólido para líquido, e a pessoa que você tocou um dia agora corre sobre sua pele, agora escorre por suas costas, e você pode se banhar, pode afundar, pode se afogar na memória, mas seus dedos não podem segurá-la.

O livro que acabou com as minhas lágrimas

  • Por Favor, Cuide da Mamãe </3

A trama que me causou arrepios

  • O Fantasma da Ópera! Por incrível que pareça hahaha

O livro que me deixou mais curioso

  • Após ler Os Luminares dá vontade de saber tudo sobre os astros, sob todos os pontos de vista.

A obra que me fez gargalhar

  • Hard Times, do Dickens! Apesar de triste e com um tom de denúncia, é bastante divertido e irônico.

A história da qual eu sinto mais saudades

  • Les Miserábles </3 ainda não me acostumei a viver sem minha leitura diária desse livro hahaha

O crime que me pegou de surpresa

 

Os “mais”
A leitura mais difícil

  • Os Luminares. Como são MUITAS personagens, em um momento ou outro acabei me perdendo.

A leitura mais fácil

  • Aesop’s Fables. Fábulas curtinhas e super fáceis de assimilar.

O livro que li mais rápido

  • O Menino do Pijama Listrado.

O livro que mais demorei para ler

  • Les Miserábles, por motivos de extensão mesmo.

 

E por fim…
Em 2015, minha meta era ler 70 livros e terminei o ano com 55 leituras.

Para 2016, minha meta é ler 50 livros.

Diminuí a meta porque apesar de no ano passado eu ter lido quase 80 e ter sido super legal, acredito que 50 é uma boa média sempre. Se eu passar, ok. Se não…vai ser ótimo também 😉

img_9616

O Diário de Anne Frank (Anne Frank)

A Segunda Guerra Mundial pode ser descrita de diversas maneiras, porém é pouco provável que entre elas haja alguma que seja extremamente positiva. A maioria de nós (e quando digo “nós”, digo pessoas nascidas e vividas pelo menos 40 anos depois do fim dela) também acaba se concentrando apenas nos acontecimentos dos front de batalha e nos bastidores políticos que acompanharam toda essa triste época, ao buscar algum tipo de leitura sobre o período.

Ler O Diário de Anne Frank (Het Achterhuis) é uma experiência realmente diferente do que muitos buscam com relação à literatura que retrata os acontecimentos da WWII. Não digo por ser um relato de uma pessoa que vivenciou o período, e sim, pelo fato de ter sido escrito por uma garota judia entre seus 13 e 15 anos, por mostrar dois anos de sua vida trancafiada em um mesmo local, sem poder sair, e, por fim, por exibir os efeitos da Guerra de forma diferente da do “normal”: Anne e todos ao seu redor sofrem terror psicológico, depravação de sono e alimento, entre outras coisas, mas tudo dentro de uma rotina diferenciada – e extremamente angustiante.

odiáriodeannefrankblog

Anne Frank (Annelies Marie Frank) foi uma garota judia nascida em Frankfurt, em 1929, mas criada na Holanda. Vinda de uma família abastada, até, vivia uma vida bastante confortável e com preocupações que qualquer menina de 13 anos teria, até que a realidade da guerra bateu de frente com a sua história.

Fiquei alguns dias sem escrever porque queria, antes de tudo, pensar sobre meu diário. Ter um diário é uma experiência realmente estranha para uma pessoa como eu. Não somente porque nunca escrevi nada antes, mas também porque acho que mais tarde ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de 13 anos. (pg. 18)

A Segunda Guerra teve início em 1939, e em 1942, Anne, sua irmã Margot e seus pais decidiram se esconder durante a ocupação alemã na Holanda, com a esperança de que a situação se resolveria rapidamente. Com um plano aparentemente “infalível” e com a ajuda de amigos, os Frank não imaginavam que ficariam tanto tempo reclusos e até admitiram mais uma família com três pessoas e outro homem para se esconder junto com eles. Para adiantar o desfecho da “história”, todos dentro do Anexo (como ficou conhecido o lugar) foram levados para campos de concentração em 1944. Não se sabe quem os traiu, mas apenas o pai de Anne sobreviveu à Guerra.

Mas qual é o sentido de ler um livro sabendo que a protagonista não teve o seu final feliz? Especialmente porque falamos aqui de uma história verídica? Bem, o fato é que O Diário de Anne Frank vai muito além de um relato apenas sobre a Guerra e as frases bonitas citadas pela menina. É claro que tudo o que aconteceu durante este período na vida dela está diretamente ligado à WWII. Porém, o que temos aqui é a visão de vida de uma jovem muito inteligente, curiosa, perspicaz, irônica e de personalidade forte. As suas entradas no diário são curtas e até semelhantes, às vezes, mas é muito difícil não ficar absorto pela leitura, justamente pela personalidade singular de Anne.

Uma nova ideia: durante as refeições eu falo mais comigo mesma do que com os outros, o que tem duas vantagens. Primeiro, eles ficam satisfeitos por não precisarem ouvir minha conversa contínua, e segundo, não preciso me chatear com suas opiniões. Não acho que minhas opiniões sejam idiotas, mas as outras pessoas acham; por isso, é melhor guardá-las comigo. (pg. 147)

Anne narra toda a sua vida escondida no Anexo (que era, de fato, um anexo com vários cômodos do escritório de Otto Frank, seu pai), e nos mostra desde a contabilidade usada para comprar roupas e mantimentos, os horários que cada um tinha para ficar em cada cômodo (e inclusive usar o banheiro) até as atividades diárias. Os oito moradores sempre faziam o possível para manter-se ocupados o tempo todo, e havia uma grande preocupação de que as três crianças continuassem sempre estudando. Anne, Margot e Peter (o filho da segunda família, os Van Pels) faziam diversos cursos à distância, inclusive de línguas. A entrada de alimentos e outros utensílios somente era possível com a ajuda de amigos dos Frank, os quais são sempre mencionados com gratidão pela menina e que nunca falharam em ajudá-los ao longo de todo o tempo em que ficaram lá.

O que realmente impressiona no diário (chamado de Kitty, por Anne) é o desenvolvimento da protagonista. Ela começa com relatos otimistas, com entradas mais curtas e mais triviais, e conforme o tempo e o cansaço abatem-se sobre ela, o tom e o tamanho das entradas ficam mais profundos e maiores. Apesar de tudo, ela não poupa suas opiniões e critica com veemência a atitude de todos na casa, especialmente em relação à sua personalidade. Já se vê que ela não aceitava o tratamento padrão dado a meninas de sua idade, revelando-se mais rebelde e transgressora, até. Ao contrário de sua irmã mais velha, Margot, que era mais submissa, Anne não aceitava ser podada e sofria intensamente com isso – aparentemente, o seu desejo de que a Guerra acabasse e de que ela retomasse um certo grau de liberdade estava mais ligado a este fator do que os outros incômodos que ela narrou ao longo do livro, como incômodos físicos. Daria muito gosto ter visto até onde ela iria se tivesse chegado a idade adulta.

Eles criticam tudo a meu respeito – e quero dizer tudo mesmo: meu comportamento, minha personalidade, meus modos; cada centímetro meu, da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, é assunto para fofocas e debates. Palavras grosseiras e gritos são constantemente lançados sobre minha cabeça, mesmo eu não estando acostumada a isso. De acordo com os poderes constituídos, eu deveria rir e suportar. Mas não consigo! (pg. 59)

Conforme o tempo passa, Anne começa a escrever de forma mais densa e intimista, e se “aventura” até em opiniões políticas – as quais, inacreditavelmente, não eram apenas emuladas de seus pais ou dos outros adultos da casa. Ela também desabafa sobre seus desejos sexuais e sobre a tórrida relação com a mãe, a qual diversas vezes diz odiar e não suportar. O tom da narrativa vai ficando também mais depressivo, já que o otimismo inicial de que todos sairiam rapidamente do Anexo e de que a Guerra logo acabaria vai ficando em segundo plano. Às vezes ele está lá, mas Anne não era nenhuma “Pollyana”, ao contrário de quem apenas lê algumas frases do livro imagina, e isso, ao contrário do que se possa pensar, não a diminui. O fato de ela ter uma visão até bonita do mundo, mas fraquejar diversas vezes, apenas nos mostra a sua humanidade, e não uma imagem estática de que Anne era cega pela bondade e não tinha sentimentos mundanos.

Os seus sentimentos mundanos foram exatamente os pontos que me fizeram gostar muito mais dela. É muito fácil transformarem pessoas em ícones, mas quando se conhece as motivações, os pensamentos e até mesmo os “defeitos”, a desmistificação ocorre com tanta eficiência, que pelo menos comigo o fato de a pessoa ser REAL e HUMANA a torna muito melhor. Talvez porque seja mais fácil se identificar com ela em um nível mais pessoal, mas o efeito ocorrido comigo foi esse: alguém com tantos questionamentos, com tantos sentimentos reprimidos e indignações, ainda sim conseguia vislumbrar uma porção de coisas muito especiais, e isso é fantástico.

Voltando ao livro, não era apenas problemas com relações interpessoais que torturavam a todos no Anexo: eles acompanhavam pelo rádio, quando possível, toda a movimentação da Guerra, e ficavam sempre tensos e com medo de que a qualquer momento a Gestapo pudesse descobrir que estavam escondidos. Outro problema era a obtenção de produtos simples de higiene e a alimentação, já que várias vezes a comida armazenada estragava ou ninguém mais aguentava comer a mesma coisa por semanas a fio. Foi um tipo de tortura diferente da sofrida por muitos judeus clandestinos que viviam fugindo, mas não significa que as coisas eram fáceis por isso.

Anne era extremamente independente e não poder fazer as coisas à sua maneira era o que mais a incomodava, na casa. É bastante “surpreendente” também a forma sincera com a qual ela denomina os desafetos do Anexo e de como “desdenha” dos garotos, sabendo do seu valor. Ela rapidamente constrói convicções e as destrói, mostrando uma maturidade incrível em admitir o quanto ainda tinha que aprender, e em como passou a valorizar as pequenas coisas em sua vida. Coisas que são difíceis de se enxergar até mesmo quando adultos.

Dessa forma, arrisco dizer que O Diário de Anne Frank pode ser lido mais como uma análise isolada de uma juventude literalmente cercada do que um relato único sobre a Segunda Guerra. Não tive como dar uma nota baixa para a obra, pois como é possível tirar méritos de uma garota sincera, que sempre admitia seus erros e que vivia trancafiada em uma casa cheia de pessoas que ela não gostava, genuinamente? E que ainda sim tentava manter a sua sanidade, não só porque acreditava em um futuro melhor, que poderia bater à sua porta a qualquer momento, mas porque precisava viver pelo simples fato de estar viva e de ter que aproveitar a vida da forma como era possível?

No fim, Anne, que não queria ser taxada como nenhuma salvadora ou criança especial, o foi por ter apontado o óbvio para todos sem ter nenhuma intenção de fazê-lo. Inevitável, mesmo sabendo do seu destino desde o começo, não sentir uma pontada no coração lendo a última coisa escrita por ela.

(…) tento achar um modo de me transformar no que gostaria de ser e no que poderia ser se… se não houvesse mais ninguém no mundo. (pg. 370)

  • Anne mudou os nomes e sobrenomes dos van Pels ao escrever o seu diário: Auguste van Pels, Hermann van Pels e Peter van Pels eram chamados, respectivamente, Petronella, Hans e Alfred van Daan. Quando o livro foi publicado, retomaram apenas o nome de Hans e Alfred para os seus verdadeiros nomes, Hermann e Peter, mas mantendo o sobrenome fictício (van Daan). O mesmo ocorreu com Fritz Pfeffer, chamado no livro de Albert Dussel.

  • O Diário de Anne Frank teve várias versões. Originalmente, o pai de Anne censurou as partes nas quais a garota falava sobre seus desejos sexuais e o relacionamento com Peter van Pels, além de todas as partes nas quais falava mal da mãe e dele mesmo. A versão que li é a completa, com todas as páginas encontradas por uma das amigas da família Frank depois que todos no Anexo foram presos.

  • A minha edição é a da BestBolso, publicada em 2013, com tradução de Ivanir Alvez Calado.

O Mundo Pós-Aniversário (Lionel Shriver)

Quantas vezes nos perguntamos: “e se eu tivesse feito tal coisa ao invés de outra, como estaria agora?”. Esse tipo de pensamento pode tanto ser uma tortura, quanto um deleite, e provavelmente todos nós tivemos questionamentos desse gênero em algum momento de nossas vidas.

Lionel Shriver é um nome bastante conhecido da literatura contemporânea nos Estados Unidos, devido ao seu livro Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin), que rendeu até mesmo uma adaptação cinematográfica hollywoodiana de peso. No entanto, em O Mundo Pós-Aniversário (The Post-Birthday World), ela cria uma história com duas realidades paralelas correndo quase juntas e decorrentes de uma única escolha. E só isso (além do grande nome que a escritora fez mundo afora) já seria o suficiente para despertar a atenção de qualquer leitor.

Após ler Kevin, li Grande Irmão (Big Brother), também de Lionel, e notei que ela é bastante de escrever sobre mulheres fortes, e esse também foi mais um diferencial para que eu quisesse ler Aniversário. Confesso, no entanto, que me surpreendi grandemente com basicamente todos os rumos que a história tomou, e nem sempre  de forma positiva.

omundoposaniversarioblog

Lionel, que também é jornalista, é especialista em escrever obras bastante densas. Não só pela temática de seus livros, as quais são, em geral, bastante polêmicas, mas pelo modo como ela joga as cartas na mesa: sempre há algo com o qual você irá se identificar, em suas histórias. Mesmo que suas personagens sejam horrendas, haverá algo ali muito além de um simples reconhecimento. E não, o discurso de mas todos nós sempre encontraremos algo de semelhante em outrem não é necessariamente aplicável aqui, porque a autora sai do lugar comum com tanta frequência em meio aos devaneios das personagens, que metáforas e comparações surgem com coisas que sequer imaginávamos mas que fazem todo o sentido após as lermos. E isso geralmente acontece apenas com pessoas que escrevem muito bem, exatamente como ela.

 Todo mundo entendia: isso era o que se fazia “no começo”, e ela e Lawrence estavam no meio. Ou, então, ela passara séculos achando que estavam no meio, embora não se pudesse ler a própria vida como um livro, medindo os capítulos restantes com o polegar. Nada impedia que se virasse uma página comum, numa noite comum, e de repente se descobrisse que não se estava no meio, mas no fim. (pg. 60)

O Mundo Pós-Aniversário possui uma trama inicialmente bem simples: Irina McGovern mora junto com Lawrence Trainer, na Inglaterra, há quase uma década. O relacionamento dos dois é aparentemente normal, ele sendo um homem mais calmo e ela com uma personalidade um pouco mais vivaz. Tudo muda quando Irina, que é ilustradora de livros infantis, faz uma parceria com Jude Acton, e ela e Lawrence passam a se encontrar anualmente com Jude e o esposo, um dos mais famosos jogadores de sinuca do país: Ramsey Acton. Com uma certa dose de clichê inicial, Ramsey é bem diferente do parceiro de Irina: galante, bon vivant e muito sensual. Mas o “clique” não acontece imediatamente. Irina sequer imagina qual assunto poderia ter com um homem desses. Apenas alguns aniversários depois, no entanto, algo diferente acontece e Irina sente vontade de beijar Ramsey. A partir daí, a história se divide em dois rumos: a vida de Irina se ela tivesse beijado o jogador de sinuca e a vida de Irina se tivesse combatido a tentação e voltado para casa.

Em relação aos capítulos alternados, Lionel os deixou quase o tempo todo correspondentes, com poucas (e bem-vindas) exceções. Por um lado, o leitor sabe o que esperar,  já que assim que acaba um capítulo, ele “recomeça” com a visão da realidade alternativa imediatamente – cabe um adendo aqui, de que não é claro qual é a realidade e qual é a alternativa –  mas por outro, aos poucos Lionel vai confundindo cada vez mais e entrelaçando as realidades de modo bastante natural, e se no começo parecia “fácil” saber o que era verdade e o que era especulação, conforme a carruagem anda vai ficando mais difícil a tarefa de descobrir qual é a realidade.

Lionel usa as três profissões das três personagens como impulsionadoras de todas as metáforas e comparações ao longo da história, como se suas vidas fossem meros instrumentos do significado destas respectivas ocupações: a sinuca, a análise sobre terrorismo (o capítulo sobre o 11 de setembro na realidade com o Lawrence foi um dos mais bonitos, por sinal) e ilustrações. A autora disseca os pequenos e grandes aspectos de cada uma e os entrelaça com a vida e comportamento humanos de forma triunfal. Isso faz com que o livro, apesar de bem longo (mais de 500 páginas), não se torne enfadonho ou entediante. Mas sou bastante suspeita, pois a escrita de Lionel é algo que me atrai muito e que até vicia – até certo ponto.

Tudo parece muito bom, e muito legal, mas o livro tem um grande problema, que pode ser dissecado em duas partes: a primeira delas diz respeito ao modo como Lionel criou suas personagens. Irina é uma mulher que logo no começo do livro confessa que não consegue viver sem um homem. Opa! Já é uma faceta diferente das mulheres poderosas e independentes que a autora costuma criar. Mas este não é o problema, de fato. Irina precisa escolher entre duas pessoas aparentemente diferentes, mas que a oprimem de formas semelhantes: tanto Lawrence quanto Ramsey são extremamente machistas e manipuladores, e por algum motivo, a personagem principal não consegue enxergar a vida sem eles e se submete a todos os seus caprichos. Ela pede desculpas constantemente após humilhações sofridas por ambos, recebe péssimos conselhos de outras personagens mulheres (como a mãe e a “melhor amiga”) e não enxerga que está sendo tratada como lixo por ambos.

Se Ramsey estava se abstendo, ela também se absteria. No composto geral, era um sacrifício pequeno – não era? Deveria ser. Realmente deveria ser. Infelizmente, o fato de dever ser não significava que fosse. (pg. 492)

A segunda parte do problema é o fato de que isso não parece totalmente proposital. O que quero dizer é que Lionel aqui não aborda a problemática da mulher sendo submissa/manipulada/diminuída por homens e não usa Irina e seus dois possíveis futuros para explorar isso. Ela apenas faz parte das críticas ácidas ao comportamento conjugal. A intenção da autora aqui é explorar as decisões das nossas escolhas e um pouco da vida lado a lado de casais aos 40 anos. Nessas duas questões, ela consegue trabalhar muito bem, já que as dúvidas da personagem principal são críveis e o modo como ela analisa as situações vividas também é. Esse é um dos motivos que me deixa pensando que ela pode ter desperdiçado uma história com mais potencial ao diminuir cada vez mais Irina, até a sua dependência dos dois homens se tornar maior do que o seu talento, sua individualidade e até mesmo maior do que uma esperança do leitor de que ela conseguirá dar a volta por cima, seja qual for o futuro correto que tenha acontecido para ela.

Ramsey e Lawrence são as personagens mais diferentes e parecidas que alguém poderia criar, e isso sim soou proposital: são ambos inseguros, egoístas, bloqueiam todos os melhores momentos de Irina e cada um oferece um tipo de segurança e fraqueza diferentes, e isso por si só poderia ser uma boa lição, já que por fora a distinção entre eles foi o que fez surgir dúvidas na cabeça dela, se tudo isso não caísse no problema do parágrafo anterior: a personagem principal não parece aprender nada com a repressão, e até se regozija com ela, já que essa humilhação toda que ela passa parece ficar em segundo plano perto da preocupação que Lionel tem de nos fazer descobrir qual é a realidade e qual é a mentira. No fim, foi muito fácil detestar os dois homens, pelo simples fato de que eles existem e representam grande parte daqueles com os quais nos relacionamos.

O que realmente fica como moral em Aniversário é algo parecido com o que as fábulas nos ensinam: não troque seis por meia duzia cuidado com o que deseja, e fica aquela sensação de que Irina não merecia isso. Esse suposto presente de aniversário acaba saindo extremamente caro. Como a personagem principal não muda de uma realidade para outra, e nem os dois homens de sua vida, fica difícil tentar entender qual foi o objetivo de Lionel ao escrever essa história. Claro, em partes foi para mostrar o ser humano em uma de suas piores formas, e como não dá para mudar a vida se você também não muda. Mas ficou um vazio e também a promessa de um pouco mais…um incômodo que deveria vir só do modo realista como ela escreve, e não de uma tristeza genuína pelo fato de a personagem principal ter sofrido tanto – independentemente do destino.

Lionel Shriver é uma jornalista americana que vive em Londres. Escreve livros desde os anos 80, quase sempre destacando mulheres fortes e independentes em suas obras. O Mundo Pós-Aniversário foi publicado originalmente em 2007, e a minha edição é da Intrínseca, publicada em 2009 e traduzida para o português por Vera Ribeiro.

O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel García Márquez)

O amor é o sentimento mais controverso e sem definição clara que podemos encontrar.

Ele também é o que mais desperta outros sentimentos concomitantes: ódio, desprezo, ciúmes e insegurança geralmente andam de mãos dadas com ele, além de patologias físicas, como enjoos, depressão e hipersensibilidade a tudo ao seu redor.

Em Amor nos Tempos do Cólera (“El amor en los tiempos del cólera”, em espanhol), Gabriel García Márquez tenta explorar o tema em uma cidade sem nome do Caribe, nos tempos antes, depois e durante alguns surtos de cólera entre 1880 e 1930. Mas engana-se quem pensa que esta é uma história romântica ou comovente, pois não é. Ela é uma análise de extremos, no qual há amor por toda a parte, mas não necessariamente entre as personagens principais.


O Amor nos Tempos do Cólera

Chega a ser espantoso como alguns escritores possuem o poder de escrever bem. E como sabemos que “escrever bem” é quase sempre subjetivo, posso dizer que o que sinto lendo qualquer coisa que Gabriel García Márquez coloque no papel é uma fluidez tão única que é impossível não notar como ele faz com que as palavras (simples, já adianto) pareçam de fato um instrumento muito bem dominado, mas ao mesmo tempo também as torna tão independentes que não dá para sentir que estamos lendo um livro, é como se a história fosse escrita por si mesma e não por um intermediário humano – você sente como se estivesse vivendo a história junto com as personagens, respirando o mesmo ar, bebendo as mesmas bebidas e pisando nas mesmas calçadas.

E por falar em história, esta gira em torno de Fermina Daza, Juvenal Urbino e Florentino Ariza. Florentino e Fermina se apaixonam quando ela ainda é uma adolescente e ele pouco mais velho. O relacionamento todo ocorre apenas através de cartas, nunca de conversas em pessoa, mas o pai da moça, disposto a fazê-la se casar com um homem rico (coisa que Florentino não é), impõe a ela uma viagem quando descobre a troca de correspondências. Mesmo longe, o casal continua se comunicando, mas o tempo possui consequências, e ao finalmente voltar e reencontrar Florentino, Fermina percebe que não o ama mais (ou que possivelmente nunca o amou) e posteriormente se casa com o rico e influente médico Juvenal Urbino. Florentino não se conforma com o desfecho e obstinadamente coloca na cabeça que um dia ela será sua, mesmo que muitos anos se passem – e é isso o que acontece. Florentino usa o amor que sente por Fermina para estabelecer todo o curso de sua vida, e mais de 50 anos depois ainda a venera como no primeiro dia.

Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: “Deus meu, pobre homem!” Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
– Não, por favor – disse. – Esqueça. (pgs. 132 e 133)

Publicado em 1985, O Amor nos Tempos do Cólera é uma leitura densa, rica e de ritmo bastante acelerado. Não há o que ser dito em termos de ambientalização ou da falta de ideias do autor – que é mestre em transformar pequenas situações do cotidiano em grandes acontecimentos – mas o livro pecou em diversos pontos, os quais me impediram de dar uma nota à altura da qualidade de escrita apresentada.

Gabo obteve grande êxito ao traçar paralelos entre o amor e diversos outros sentimentos, mas o que ele mais conseguiu ilustrar foi o amor = cólera. E não A cólera, e sim O cólera, causado por uma bactéria chamada Vibrio cholerae. Os seus sintomas são frequentemente comparados aos do amor, e acompanham Florentino por mais de 5 décadas. O amor à moda antiga, aquele em que se ama uma ideia e só se conhece a pessoa amada após o casamento, por si só, não é exatamente o problema aqui. Ariza se apaixona por Fermina, e após ela lhe dar um belo fora (sem motivo aparente para ele), ele agarra-se a essa ilusão de forma muito ferrenha. Seria tudo muito bonito, se não fosse assustador. Não é amor: é obsessão. No livro fica claro que a sua alma gêmea não é Fermina, mas ele simplesmente coloca na cabeça que ela irá se casar com ele um dia, e trabalha a sua vida toda em torno disso: ao vê-la casada com um homem rico, alavanca a sua vida e torna-se um homem de respeito e posses; nunca se casa, mesmo amando esta alma gêmea, porque quer se guardar para Daza; espera pacientemente a morte de seu marido para que um dia fiquem juntos, sem sequer levar em consideração o fato de que ela não quer que isso aconteça.

A memória do passado não redimia o futuro, como ele se empenhava em acreditar. Pelo contrário: reforçava a convicção que Fermina Daza sempre tivera de que aquele alvoroço febril dos vinte anos tinha sido alguma coisa muito nobre e bela, mas amor, não. (p. 393)

Essa insistência, em princípio bela, vai perdendo a beleza e apenas tornando-se algo não tão nobre: é como se Florentino não pudesse admitir essa derrota. Ao longo da vida, inclusive, teve dezenas de amantes, e sempre se prostrava com a última palavra, sempre pronto a ser ele a dizer adeus. O fato de Fermina ter sido a única a lhe negar o seu amor pode ser um dos motivos que o fez ficar tão obstinado por ela. E por falar em amantes, com muitas delas Gabo acerta a mão, e é muito mais interessante lermos sobre algumas relações que Ariza possui com elas do que quando ele reitera que é à Fermina que seu coração pertence.

Fermina, por sua vez, é uma mulher de personalidade fortíssima e que por isso mesmo não pestaneja ao dispensar Florentino logo no início do livro. Vive uma vida na qual o amor que sente pelo marido é somente dela. Há a impressão de que esse amor nasceu por causa dele, mas que não perdurou, e que ele estar ali é somente um símbolo de um sentimento diferente que não tem dono: os dois se acostumam e passam a amar as suas rotinas juntos. A estranheza a tudo fora delas é confundida com as saudades que sucedem uma partida ou briga com a pessoa amada. Este tema (o conformismo na relação/rotina/medo de novas coisas) é tecido de forma majestosa pelo autor no casamento dos dois, com os pequenos detalhes de uma vida conjunta tecidos tão familiarmente que chega a surpreender. Ainda assim, você não consegue ficar feliz ou se sentir nostálgico: apenas se sente triste por aparentemente não haver amor entre nenhum casal durante toda a leitura do livro. São sempre outros sentimentos, sejam eles bons ou ruins, que permeiam a obra.

O problema de tudo isso é o fato de que não há como pensar que um homem como Florentino está apaixonado por alguém, ao contrário do que o livro quer nos convencer. Ele ama muito a si próprio, e é obstinado em vencer. Não teve uma infância fácil, pois nunca foi um playboy que tinha tudo na mão, além de não ter ambições grandiosas antes de Fermina se casar com outra pessoa, mas usou isso como desculpa e inspiração até o fim. Da mesma forma que o casamento de Daza e Doutor Juvenal era semeado por um amor à rotina, na cabeça de Ariza, ele e seu amor por Fermina eram a sua rotina, o seu descanso, o seu consolo. Julgou amar sozinho por 50 anos, e assim o fez; mas somente à ideia do que poderia ser o amor, e não a pessoa amada em si. E foi somente ali que os dois entraram em sincronia: sem saber, o amor interrompido de ambos terminou com uma vida inteira sem amor nenhum para eles.

“Você nem repara como sou infeliz.”
Ele tirou os óculos com um gesto muito seu, sem se alterar, inundou-a com as águas diáfanas de seus olhos pueris, e numa só frase atirou-lhe em cima o peso de sua sapiência insuportável: “Lembre sempre que o mais importante num bom casamento não é a felicidade e sim a estabilidade”. Desde suas primeiras solidões de viúva ela compreendeu que a frase não escondia a ameaça mesquinha que lhe havia atribuído em seu tempo, e sim a pedra de toque que a ambos proporcionara tantas horas felizes. (p. 372)

Florentino não pode ser considerado um Heathcliff (O Morro dos Ventos Uivantes), pois é bem menos extremo, mas, novamente, a problemática em si não é uma personagem como ele existir, e sim o autor querer nos convencer de que essa devoção toda dele é muito bonita. Não é bonito espionar uma pessoa que você mal conhece por 50 anos; não é bonito receber uma garotinha para tutorar e já iniciar uma vida sexual com ela – e largá-la como se não fosse nada, esperando que ela compreenda, como uma adulta, que a relação deles era meramente casual; não é bonito querer alguém para cuidar de você quando envelhecer (existem cuidadoras/cuidadores de idosos no mercado que fazem exatamente isso); não é bonito invadir o funeral do marido da pessoa amada e se declarar para ela lá, sem respeito algum aos sentimentos da pessoa; não é bonito ser racista; não é bonito supor que a pessoa irá se casar com você imediatamente só porque VOCÊ julga amar demais e é claro que a pessoa vai perceber isso e vai te amar de volta e vai achar lindo; não é bonito levar fora por 50 ANOS e continuar insistindo; não é bonito desejar a morte de alguém para que você possa tomar o lugar dela; não é bonito nunca ter tido uma família e começar a se sentir bem com uma que não te pertence; não é bonito ser estuprada e ter gostado porque o cara te pegou de jeito. E por aí vai.

Mesmo se Gabo quisesse demonstrar como Florentino era louco, o final deslegitima toda a crítica. A recompensa por 53 anos, sete meses e onze dias de espera, pelo menos para mim, soa apenas como um gran finale falho. Florentino nunca amou Fermina, que foi dividida em duas: a menina que ele mal conheceu e a mulher cuja imagem ele alimentou por 5 décadas e que viveu à margem de sua vida, escondida, como uma desculpa para que ele não se comprometesse com nada – uma desculpa para a sua apatia natural pela vida. O reencontro dos dois, após tanto tempo, foi tão emocionante quando uma pasta aplicada para tapar algum buraco: visualmente correto por fora, mas provavelmente oco por dentro.

(…) tinha o pulso tênue, a respiração rascante e os suores pálidos dos moribundos. Mas o exame revelou que não tinha febre, nem dor em nenhuma parte, e a única coisa que sentia de concreto era uma necessidade urgente de morrer. Bastou ao médico um interrogatório insidioso, primeiro a ele e depois à mãe para comprovar uma vez mais que os sintomas do amor são os mesmo do cólera. (p. 82)

Gabriel García Márquez, o Gabo, foi um prolífico escritor colombiano e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, ícone do realismo e do realismo fantástico. Escreveu seis romances, quatro novelas e diversos contos e trabalhos de não-ficção.

  • A minha edição é a mais recém-impressa pela Record em 2014, com tradução de Antonio Callado.

Mentirosos (E. Lockhart)

Todos nós temos segredos da nossa adolescência e infância. Alguns são bem bobos, e outros mais pesados, mas no geral tínhamos certo receio de que os adultos acabassem descobrindo – e só quando crescemos é que nos damos conta de que grande parte das coisas era mesmo muito boba, como ter roubado alguma comida da casa de um parente, ter quebrado algo e escondido por anos, entre outras.

No entanto, há também muitas mentiras que, quando contadas incessantemente, tornam-se verdades. Ou sonhos que se tornam pesadelos. Em Mentirosos (“We Were Liars”, em inglês), E. Lockhart utiliza uma prosa delicada e irônica e com uma excelente cadência para transformar o seu texto suave e ingênuo em algo maior e com mais profundidade. Essa transição é a sua maior vitória em relação à narrativa.

Processed with VSCOcam with t1 preset

Os Sinclair são uma tradicional família estadunidense. Na teoria, possuem muito dinheiro e terras, incluindo uma ilha particular em Massachusetts, chamada Ilha Beechwood. No local, há quatro mansões: uma para o patriarca da família, Harris Sinclair e as outras três para cada uma de suas três filhas. Cadence Sinclair é a mais velha entre todos os netos de Harris, e por isso, a principal herdeira. A garota também faz parte de um grupo de quatro pessoas, chamado Mentirosos. Os outros integrantes são dois de seus primos, Mirren e Johnny, e o sobrinho do namorado da mãe de Johnny, Gat.

Uma das particularidades dos Mentirosos é o fato de que eles basicamente se encontram apenas uma vez por ano, quando toda a família se reúne para passar as férias em Beechwood. A “tradição” existe desde que são crianças, e Cadence vai nos contando algumas coisas que aconteceram em cada verão, no lugar. Inicialmente, você não espera nada das histórias (nada mesmo), mas conforme a narrativa se estende, coisas vão acontecendo, e quanto mais você procura por respostas, mais vai se desenrolando em mistérios.

Bem-vindo à bela família Sinclair.
Ninguém é criminoso.
Ninguém é viciado.
Ninguém é um fracasso.
Os Sinclair são atléticos, altos e lindos. Somos democratas tradicionais e ricos. Nosso sorriso é largo, temos queixo quadrado e sacamos forte no tênis. (p. 13)

E por falar em mistério, esse é um cuidado com o qual qualquer pessoa que converse sobre o livro precisa ter. Tentar esmiuçar pormenores para quem ainda não leu estragaria a experiência de leitura, já que este é o tipo de obra que, caso a pessoa conheça o final, não conseguirá ler nenhuma das partes da forma mais desejável. Se por um lado, esse tipo de segredo tem aquele efeito de surpresa no final, E. Lockhart só acertou porque o livro é muito pequeno. Arrastar uma situação que apenas começa a se desenrolar depois da metade do livro só é aceitável neste caso exatamente devido ao fato de a leitura ser bem rápida.

A obra em si não é complexa, apesar de Cadence, a personagem principal, ser bastante tridimensional. A sua ironia parece birra de criança no começo, e em alguns momentos ela oscila tanto que parece ser bastante real – ou que ela realmente acredita nisso, mesmo tentando demonstrar que não. A sua relação conturbada com os pais e com Gat parece bastante confusa no começo, e o livro evolui em tudo junto com a personagem. Apesar disso, Cadence não existe para ser amada ou para que você a admire. Essa função pertence à Gat, o garoto de origem indiana que levanta questões avançadas demais para alguém de sua idade.

A visão inicial que temos dos Sinclair é a de que são todos ricos e fúteis, e o estereótipo que vem com essa união de fatores às vezes incomoda um pouco. Gat é o único que destoa em tudo da família, mesmo das mais bem intencionadas e doces crianças, outros primos que não são incluídos no grupo dos Mentirosos. Conforme a história avança, só vemos que os adultos são, na verdade, gananciosos, mentirosos, manipuladores e incrivelmente infelizes, e que Gat não é o único de olhos abertos no livro, mas sim o único que não tem motivos para fechá-los, já que é apenas um menino e não tem nada a ganhar/perder com os seus questionamentos.

Estou me perguntando como podemos dizer que o avô de vocês é dono desta terra. Não legalmente, mas de fato. (…) O que estou perguntando é: como podemos dizer que a terra pertence a qualquer pessoa? – Gat fez um gesto englobando a areia, o mar, o céu. (pgs. 29-30)

E. Lockhart divide a narrativa entre contos de fadas criados por Cadence – os quais claramente falam sobre a sua família – e a própria contando a história de cada verão, em primeira pessoa e com alguns trechos sem o refinamento de um texto, mas com improviso e repetições poéticas. Compartilhamos os seus medos, a confusão de sentimentos, a descoberta do amor, depressão e o fato de que, como uma Sinclair, o seu dever é estar sempre linda, feliz e contida, o que a torna uma mentirosa, independentemente do grupo. As pequenas mentiras que conta – que não são as do tipo compulsiva, e sim as do tipo necessárias para garantir privilégios/proteger as aparências – parecem sempre ter proporções menores, mas quando acumuladas, tornam-se progressivamente um peso insuportável.

De fato, progressão é o que define bem o livro. Ele começa infantil, irritante, com sentimentos soltos e atos sem explicação; o fato de Cadence ter ficado doente e ter passado dois anos sem ir à Beechwood e, por consequência, não ter procurado nenhum dos Mentirosos tira a credibilidade e amor iniciais que você sente que são intrínsecos à história (ela apenas manda e-mails, e sem muito sucesso). Por outro lado, você pensa que uma criança, de fato, poderia viver a vida achando que acontecimentos do verão são apenas do verão, e somente quando Cadence amadurece e começa a perceber as coisas ao seu redor é que você passa a relevar certas coisas.

Ainda que eu não tenha “engolido” essa falta de iniciativa por parte de Cady, a qual E. Lockhart poderia ter trabalhado de outra forma (quem já leu o livro sabe o motivo), a parte mais madura, profunda e com fluxo de consciência mais contínuo da história só poderia ter ocorrido porque a anterior, infinitamente inferior, estava lá para que a comparação existisse. Foi o retrato perfeito da transição da infância para a adolescência; da ignorância para o esclarecimento; da simplicidade para a complexidade; do egocentrismo para a percepção de mundo de fora para dentro, e por fim, do amor-que-acha-que-se-sente para o amor, de fato.

A tragédia é feia e complicada, idiota e confusa.
É isso que as crianças sabem.
E elas sabem que as histórias
sobre sua família
são ao mesmo tempo verdade e mentira.
Existem infinitas variações.
E as pessoas continuarão a contá-las. (pgs. 268-269)

Emily Jenkings, conhecida como E. Lockhart, é uma escritora estadunidense, autora de livros para crianças, jovens e adultos. Mentirosos é o seu mais recente livro, publicado em 2014.

  • A minha edição é a da Editora Seguinte, selo da Companhia das Letras, com tradução de Flávia Souto Maior, publicada também em 2014.